Copyright © 1999 by Ruth Ryan Langan
Originalmente publicado em 1999 pela Kensington Publishing Corp.
TÍTULO ORIGINAL: A Rogue in a Kilt
© 20O6 Editora Nova Cultural Ltda.
Digitalizado e Revisado: Polyana Ribeiro
RESUMO: A saga dos O´Neil: Grandes paixões e lutas povoam a vida desta família!
Irlanda, 1560.
O homem mais procurado: Rory O´Neil era procurado por todos os soldados que envergavam o uniforme inglês, mas isso não deteria sua busca de vingança.
O homem mais desprezado: Ele era odiado por aqueles que o conheciam como O´Neil Coração Negro. Para os que acreditavam em sua causa, porém, era o único guerreiro corajoso o suficiente para salvá-los.
O homem mais amado: AnnaClaire Thompson soube no primeiro instante que Rory seria o homem a conquistar seu coração. Mas será que o obstinado irlandês um dia retribuiria seu amor?
Rory
(RUTH LANGAN)
PRÓLOGO
Irlanda, 1560
A capela em Ballinarin, o ancestral lar do clã O´Neil, transbordava de familiares e amigos vindos de tão longe quanto o Castelo Malahide, em Dublin, e o Castelo Bunratty, em Clare. O clima era de festa enquanto todos se preparavam para testemunhar a união de Rory O'Neil, filho e mais velho de Gavin e Moira, e sua amada Caitlin Maguire.
Numa saleta no fundo da capela, Rory andava de um lado para o outro, enquanto seu irmão, Conor, observava da porta e os últimos convidados ocupando os bancos.
— Por que ela está demorando? — afligia-se Rory, o sol através da janela alta emprestando a seus cabelos um tom azul-escuro.
Resplandecia de calça preta, camisa e a capa com o brasão dos O'Neil atirada sobre o ombro.
— Não receie que ela tenha mudado de ideia, Rory. A garota é apaixonada por você desde que se conhece por gente. Tenha paciência.
— Para o inferno com sua paciência!
Conor sorriu.
— Essa nunca foi uma de suas virtudes, Rory. Mas dê à noiva tempo para se embelezar para o marido.
— Nada poderia tornar Caitlin mais bonita do que já é. E por que deveria ter paciência? Esperei a vida toda por este dia.
— Eu sei. Parece que a ama desde sempre...
— Desde que tinha doze anos. — Rory deu aquele sorriso que fazia as donzelas de Derry a Cork sonhar em chamar-lhe a atenção. Mas ele só tinha olhos para uma donzela. — Nasci para ela. Eu lhe digo, Conor, hoje, minha vida se completa.
— Baixou a voz. — Contei-lhe que dei um jeito de vê-la ontem à noite? Disse a ela que não podia esperar até hoje. Queria deitar-me com ela.
O irmão lançou a cabeça para trás, rindo.
— Não deixe Friar Malone saber disso!
— Pouco importaria. Ela recusou. Disse que queria esperar a noite de núpcias. Seria seu presente especial para o marido.
— Rory sorriu. — Marido. Gosto do som desta palavra.
— Com todo esse amor acumulado, tenho certeza de que será uma noite de núpcias memorável.
Os irmãos voltaram-se quando a porta se abriu e uma moça esbelta de vestido de gaze cor-de-rosa entrou.
— Oh, tive medo de me atrasar.
— Atrasar-se para o quê, Briana? — brincou Rory com a irmã caçula.
Com os cabelos cor de fogo até a cintura embaraçados pelo vento, a garota tinha as bochechas avermelhadas e o peito ofegante, como se tivesse corrido toda a distância da fortaleza até a capela. Toda a vida, tivera que correr para alcançar os dois irmãos mais velhos.
— Para beijar meu irmão antes que ele me abandone para sempre.
— Fala como se eu fosse embora. Caitlin e eu vamos morar aqui mesmo, em Ballinarin.
— Eu sei, mas você estará casado. — A garota sorriu, e os irmãos souberam que ouvira parte da conversa deles. Mas o segredo não iria além. Sempre podiam contar com a discrição de Briana. — E, em breve, a julgar pelo modo como se olham, será pai, também. Nunca mais terá tempo para sua irmã.
Rory puxou-a para perto e beijou-a no alto da cabeça.
— Sempre terei tempo para você, Briana. E poderá nos visitar todos os dias, ajudando Caitlin com os pimpolhos.
— Quantos pretender ter?
— No mínimo, uma dúzia. Os meninos serão todos bonitos como o pai e as meninas terão cabelos escuros como os da mãe, a pele clara como as águas cristalinas do rio Shannon, tão lindas que terei que trancafiá-las para que os pilantras locais não as roubem.
Conor e Briana deram gargalhadas.
— Eis o que aprecio em você, Rory — revelou o irmão. — Quando sonha, são sempre sonhos grandiosos. Só vamos rezar para que não seja o contrário. Afinal, seus filhos podem nascer pequenos e delicados como a mãe e as meninas, grandonas como você.
— De jeito nenhum! Serão... — Rory calou-se ao ouvir um alvoroço na capela e sorriu aliviado. — Até que enfim. Eu começava a pensar que... — De repente, ante os gritos, assustou-se.
Saiu correndo da saleta, seguido pelos irmãos. Um menino de seis ou sete anos com as roupas rasgadas e ensanguentadas gesticulava apavorado.
— Soldados ingleses! Mais de uma dúzia!
O coração de Rory quase parou enquanto ele abria caminho entre os convidados. O menino era filho do irmão mais velho de Caitlin. Ajoelhando-se, agarrou-o pelos ombros.
— Onde estão os outros, Innis?
— Na curva da estrada. — O menino tinha os olhos arregalados de choque e dor. — Meu pai caiu em cima de mim, prendendo-me no chão. Só fiquei assistindo. Estão todos mortos, Rory...
— Não! — O grito de Rory ecoou pela capela. . Soltando o menino, levantou-se e voltou a abrir caminho por entre ã multidão perplexa.
Fora, agarrou as rédeas do primeiro cavalo que viu e o montou, incitando-o ao galope. Ouvia outras montarias acompanhando-o, mas nem olhava para trás.
Percorreu a estrada lamacenta até a curva. Mesmo antes de alcançá-la, percebeu o silêncio estranho, sinistro. Não havia canto de pássaros. Nenhuma criatura se movia. Era como se toda a terra prendesse a respiração.
Então, viu. O amontoado de corpos. Animais e humanos. O solo tingia-se de vermelho com seu sangue. Os cavalos morreram no local em que caíram, trespassados por lanças no pescoço ou no coração. Os homens lutaram bravamente. Muitos jaziam ainda segurando a espada. Mas a pior selvageria fora infligida às mulheres.
Rory viu o branco esvoaçante. O vestido de noiva de Caitlin. Foi a única maneira de identificá-la. Avançando pela carnificina, ajoelhou-se ao lado dela. O vestido fora rasgado, exceto por uma manga, ainda presa a seu pulso. Pelas marcas no corpo, viu que ela fora brutalizada antes que lhe cortassem o pescoço com tanta violência que a cabeça quase se separou do corpo.
Com um urro de dor e ódio, Rory apertou-a contra si e enterrou o rosto nos cabelos ensanguentados. Seu corpo sacudia-se com os soluços de um coração estraçalhado.
— Rory! — Conor era o primeiro a chegar. — Deus do céu, Rory...
De pé, só pôde chorar diante do irmão que enfrentava com ódio mudo todo aquele horror.
Enquanto os outros chegavam, Gavin O'Neil abriu caminho em meio à carnificina ao encontro de seu primogénito.
— O menino Innis disse que o líder foi chamado de Tilden pelos demais — informou, a voz trêmula de emoção. — Alto, musculoso, com cabelo amarelo e rosto desfigurado por uma cicatriz que vai do olho esquerdo ao queixo. — Não é uma cara fácil de esquecer.
— Eu o encontrarei — jurou Rory, tirando a capa, que usou para cobrir a nudez de Caitlin.
Levantou-se embalando o corpo destroçado da mulher que fora sua razão de viver. Naquela noite, ela teria se entregado a seus braços, na cama de ambos. Em vez disso, passaria a eternidade na terra fria e dura. Olhou para a família e os amigos. Todos choravam incontrolavelmente.
Ele mesmo já não vertia lágrimas. Lançou o olhar de pedra para além da estrada embebida em sangue.
— Dou-lhes minha palavra. Não descansarei enquanto não encontrar o maldito inglês que fez isto.
O pai pousou a mão em seu ombro.
— Vamos providenciar uma carroça para levá-la, e aos outros, para ser enterrados.
Rory desvencilhou-se.
— Ninguém tocará em Caitlin. Eu a levarei. É tudo o que posso lhe dar agora.
Uma procissão lúgubre e silenciosa percorreu a estrada de volta à capela. Os convidados em traje de gala contrastavam de modo chocante com os cadáveres ensanguentados transportados em carroças de feno. Encabeçava a coluna Rory O'Neil, a túnica e a calça marcadas de sangue coagulado. O corpo em seus braços estava totalmente coberto por sua capa, com exceção de uma mecha da cabeleira negra suja de sangue e mato.
Na capela, continuou de pé, apertando Caitlin ao peito, enquanto uma cova era aberta e Friar Malone iniciava as palavras que consignariam o corpo a solo sagrado.
Durante horas, enquanto as covas eram cavadas e os cadáveres, enterrados, Rory manteve-se ajoelhado sobre o monte de terra que cobria sua amada. Quando se dispôs o último corpo, contemplou a área dos túmulos, olhando a distância em seguida.
A família o cercou, ele abraçou o pai e a mãe e beijou a irmã.
Em prantos, Briana tinha a estrutura frágil sacudida por soluços violentos.
— Não vá, Rory... Por favor, não vá! Se for, nunca mais o verei...
— Acalme-se. — Ele a estreitou por um segundo, sussurrando junto a sua testa: — Voltarei. Confie em mim.
Conor bateu a mão em seu ombro.
— Posso ir com você? Rory negou veemente.
— É algo que devo fazer sozinho. Você é necessário aqui. — Voltou-se para a mãe, atrás do pequeno Innis, cujos ombros finos envolvia com os braços. — Pode cuidar dele?
Ela aquiesceu.
— Será como um filho, até que o meu retorne.
Rory pegou uma espada e guardou uma faca à cintura, outra na bota.
O pai despiu a capa, também com o brasão dos O'Neil, e colocou-a sobre os ombros do filho. Erguendo a mão, abençoou-o:
— Que Deus o acompanhe, Rory, e o traga de volta ao lar para aqueles que o amam.
Sem uma palavra, Rory montou em seu garanhão e voltou-se para um último olhar a Ballinarin. Do alto da muralha, Croagh Patrick vigiava a terra. A montanha mudava de cor tão rápido que nunca era a mesma. Pouco antes, exibira um cinza-esverdeado na chuva enevoada. Agora, tinha um tom pêssego ao calor do sol poente. As encostas cobriam-se de arbustos retorcidos, enquanto na base coníferas cresciam altas entre os grupos de rododendros. Quedas d'água lançavam-se cristalinas, fluindo rumo ao rio. Fiapos de nuvens pairavam acima. Aquele pedaço de terra selvagem e solitário pertencia seu coração. Era o único lugar em que já desejara estar. Agora, no entanto, a cena de falsa tranquilidade parecia zombar dele. Por causa da violência ali ocorrida, daria início a uma odisseia. Uma odisseia que o manteria afastado durante anos, talvez toda a existência, até que tudo se acabasse.
CAPITULO I
Condado de Dublin, 1562
Eles são muitos, Rory — sussurrou uma voz à brisa. Seis figuras agachavam-se às margens do Liffey, observando a folga dos soldados ingleses nas águas barrentas.
— De fato. Imaginei que não passassem de uma dúzia. Devem ser quase cinquenta. — Rory encarou o rude fazendeiro ajoelhado a seu lado. — Por que tantos?
— Agora que os ingleses descobriram as propriedades curativas da fonte fervente, este rio é seu lugar favorito de reunião. — O homem torceu o nariz contra o forte odor de enxofre. — Ajuda-os a relaxar após a diversão de matar alguns de nos.
Rory continuava vigiando do esconderijo.
— Tem certeza de que aquele com cicatriz está entre eles? O fazendeiro estreitou o olhar sobre os homens a distância.
— Ainda não o vi. Mas ele estava com esse grupo de filhos da mãe ontem quando pegaram minha filhinha no campo e se aproveitaram dela. — A voz traía sua dor. — Ela tem só onze anos, Rory. As coisas que fizeram com ela... Aquele com cicatriz exigiu ser o primeiro. Ela disse que ela escarnecia daqueles que se recusavam a diversão. — Num suspiro forte, acrescentou: — Faço questão de matá-lo.
Rory pousou a mão no braço do companheiro.
— Sei como se sente, Seamus. Mas já fez o bastante. Vá para casa e para sua família, agora.
— Preciso vê-lo morto! — protestou o fazendeiro, apertando na mão sua única arma, uma faca tosca.
— Sua família não pode se dar ao luxo de perdê-lo, Seamus. Vá. Deixe a matança para nós.
— Você o matará. Rory? Por Fiona? Por mim?
— Matarei. Se o verme estiver aqui, eu o verei morto. — Por Caitlin, relembrou-se. Principalmente, por Caitlin.
Vendo o ódio nos olhos de Rory O'Neil, o fazendeiro não teve dúvida de que a honra de sua família seria vingada. Nos últimos dois anos, toda a Irlanda soubera da sede de vingança que movia aquele bravo guerreiro irlandês. Onde quer que houvesse uma batalha entre os compatriotas e os odiados ingleses, Rory O'Neil lá estava lutando. Já matara tantos soldados que agora tinha a cabeça a prêmio. Era o homem mais perseguido do país. E o homem mais desprezado pelo inimigo. Em toda a Inglaterra e Irlanda, chamavam-no de O´Neil Coração Negro. Apesar de seu retrato espalhado por toda parte, Rory era tão amado pelo povo que podia contar com esconderijos seguros em qualquer vilarejo ou cidade. Por onde passava, homens integravam seu bando esfarrapado ávidos por reparação.
— Vamos pegá-los agora, Rory? — indagou um subordinado,tão logo o fazendeiro se foi.
— Paciência, Colin. — Estranho conselho, para alguém que sempre fora tão impaciente.
Os últimos soldados despiram a túnica e entraram na água. Uns poucos permaneciam de guarda, enquanto os demais nadavam, banhavam e espirravam água uns nos outros feito crianças. — Prontos, rapazes? — congregou Rory, levantando-se e desembainhando a espada.
Os homens aquiesceram e fizeram o mesmo. Uma onda de expectativa os atravessou, carregando-os com um fervor quase sobrenatural. Até o ar que os cercava parecia ter mudado. Ninguém falava. Ninguém se mexia, aguardando o sinal do líder.
— Agora! — anunciou Rory, num sussurro forte.
Atiraram-se contra as margens do rio, gritando como demônios. Os guardas infelizes nem tiveram chance de sacar a espada, caindo sobre seu próprio sangue.
Os soldados ingleses, antes risonhos e brincalhões, agora desesperavam-se por alcançar suas armas. Embora fossem quase dez para cada guerreiro irlandês, estavam em desvantagem por terem sido pegos desprevenidos.
Rory avançou para a água, usando a espada com economia de movimentos. A cada estocada da lâmina, um homem se enrijecia, engolia em seco é caía de cabeça no rio. Em pouco tempo, as águas barrentas do Liffey tingiam-se de vermelho. Mesmo assim, a matança continuava.
Toda vez que se defrontava com um soldado, Rory estudava-lhe o rosto, procurando a cicatriz denunciadora, decepcionando-se ao ver que não era o criminoso procurado.
Havia muito, parara de sentir um choque ao longo do braço quando sua espada encontrava músculos e ossos. Tampouco ouvia, agora, os soluços abafados e os gritos agudos dos que morriam. Só não conseguia apagar da memória a visão de sua amada Caitlin com o corpo irreconhecível de tão ensanguentado e mutilado. Eis o que o impelia. Eis o que lhe dava forças para continuar, contra todas as probabilidades.
Ao passar por cima de mais um cadáver, reparou num soldado de cabelo amarelo arrancando a espada de um dos companheiros derrotados.
Finalmente, alegrou-se Rory. A longe perseguição teria fim. Com um brado carregado de dor e ódio, atirou-se nas águas e avançou.
Ao ouvi-lo, o soldado baixou a espada.
— Levante-a, seu covarde! — ordenou- Rory, a voz embargada de emoção. — Levante-a e encare a morte como um homem!
O soldado ergueu a arma. Rory brandiu a espada, a perspectiva de vitória fervendo-lhe o sangue, enevoando-lhe a visão,
— Agora, Tilden, sentirá o gosto da vingança de Rory O'Neil! Agora, conter a estocada da lâmina era tão impossível quanto serenar as águas em torno de suas pernas. No entanto, no último segundo, percebeu seu erro. O homem não tinha cicatriz. Tinha o rosto imberbe de um adolescente. Seus olhos arregalavam-se de terror. A boca entreabria-se de surpresa.
Com a força da investida, a lâmina atravessou o peito do garoto, protuberando-se do outro lado. O jovem soldado estava morto antes que seu corpo atingisse a água.
Horrorizado e nauseado, Rory arrancou a espada e as águas em torno do cadáver tingiram-se de vermelho.
Pela primeira vez, contemplou a cena da carnificina. Nenhum soldado escapara. O Liffey e suas margens coalhavam-se de corpos. Três de seus homens acachapavam-se nas águas rasas, parecendo zonzos. Um improvisava um torniquete para a perna ferida. Outro recostava-se numa árvore, vomitando.
Quanto tempo durara a matança? Minutos? Horas? O tempo voara como um borrão.
Fazia mesmo dois anos que se encontrava naquela busca? Dois anos de sangue, violência e morte. Dois anos perseguido, escondendo-se em celeiros, aceitando comida de estranhos.
Ao mesmo tempo, como deter a carnificina? Em cada vilarejo, ouvia histórias de cabanas incendiadas, plantações destruídas e mulheres e crianças violentadas.
Estava exausto. A imagem de Ballinarin o perseguia, tentava. Às vezes, só pensava em dar as costas a sua perseguição e voltar para casa, para a família.
Mas, então, via de novo sua amada Caitlin. E convencia-se de que não podia parar, por mais que o destino o pusesse à prova, enquanto não encontrasse o criminoso inglês que brutalizara e assassinara sua futura esposa e toda a família dela. Tilden tinha que pagar.
— Vamos parar um pouco, Rory? — indagou um dos companheiros.
— Vamos em frente. — Pondo a fadiga de lado, lavou o sangue da espada nas águas do rio. Então, embainhou-a e saiu à margem. — Se não perdermos tempo, poderemos pernoitar em Dublin.
— Lamento ter que deixá-la, AnnaClaire.
— Entendo, pai. Tem seus deveres.
— Mas faz tão pouco tempo que Margaret...
A moça levou a mão aos lábios do pai a fim de barrar-lhe as palavras.
— Não nego que sinto falta de mamãe. Como o senhor. Cada dia de nossas vidas, sentirei. Mas não posso lhe pedir que renuncie a tudo e passe o resto da vida segurando minha mão.
— A dor é ainda tão recente...
— De fato. Acho que daqui a um ano ainda estarei sofrendo. Mas descobrirei maneiras de me ocupar, prometo.
— Gostaria que mudasse de ideia e fosse comigo.
— Já conversamos a respeito, pai. Simplesmente não estou preparada para deixar a casa de mamãe, seu túmulo.
— Eu sei. E entendo, minha querida. Pedi a Charles, lorde Davis, que tome conta de você. E lady Alice Thornly está planejando um maravilhoso jantar. Deu a entender que haverá vários rapazes interessantes recém-chegados que podem despertar seu interesse...
AnnaClaire forçou um sorriso.
— Não consegue mesmo evitar, não é, pai?
— Tenho culpa? Você precisa de um marido, de uma família. Está longe de casa, sem o conforto de sua mãe, e agora seu pai também a abandona.
— Não está me abandonando. Disse que estará de volta a tempo para meu aniversário.
— E estarei. Mas me sentiria melhor se soubesse que tem um bom homem olhando por você enquanto estou fora.
— Terei um bom senhor. Lorde Davis é um amor.
— Não exatamente o que eu tinha em mente. Mas não faz mal. — O fidalgo voltou-se para ver seus baús serem descarregados do vagão para as docas. — Não quero que fique até o navio zarpar. Prefiro que não se misture com a população local.
Percebendo que a filha faria objeção, ele apertou-lhe os ombros.
— Vá agora. Tavis espera na carruagem. Fique bem, minha querida. Mantenha-se ocupada. E tome cuidado. E uma época perigosa...
— Adeus, pai. Que Deus o acompanhe.
AnnaClaire deu meia-volta e começou a se deslocar lentamente entre a multidão.
Era dia de feira e as docas fervilhavam de vida. Pescadores rudes, corados, remendavam suas redes, enquanto crianças de não mais que nove ou dez anos puxavam carroças cheias de moluscos e mexilhões. Mulheres velhas em vestidos desbotados mostravam peixes listrados e bacalhaus para atrair compradores. Galinhas cacarejavam em toscos cercados de madeira. Fazendeiros expunham a produção de sua terra, batatas, cenouras e ervilhas.
O ar pesava com o cheiro de mar, terra e humanidade. Ricos proprietários de terras misturavam-se com os mais po...
edk.25